sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Já não sei viver...

São seis horas, vinte cinco minutos, trinta e sete segundos e uma vida em pausa. Dei-me ao luxo de pegar no comando e pressionar o botão de pausa. Agora não ouço mais o barulho do motor do autocarro que me deveria levar a casa, não vejo a chuva a cair, não consigo cheirar o ar do final do dia que circula na capsula metálica que nos comporta, não vejo o tempo avançar, o relógio marca a mesma hora teimosa e o mesmo minuto intrangisente. Tudo está imóvel, nada tem vida, nem matéria, nem substância de qualquer sorte, tudo é parado porque eu assim o quis.
Encostado no banco, olho para o meu lado em busca de ver quem é o parceiro que se esconde no assento imediatamente à esquerda. A noite não deixa perceber todos os seus sinais, mas ao olho não conseguem escapar certos traços gerais, o seu cheiro a tabaco barato, a sua ocupação servil e o facto de não ter um comando com um botão de pausa como o meu. A verdade era essa, o mundo parou sem parar, fingiu que parou para me deixar para trás! Todos avançam menos eu, todos veem a chuva e ouvem os motores e sentem aquele cheiro. Só eu parei realmente.
Enfim, nem sei o que sinta, se pena se compaixão, senão as duas que até podiam ser irmãs. Só eu paro, mais ninguém o faz. Nesta altura lembro-me das filas de gente que amorfas marcham como soldadinhos de chumbo pelas ruas que nunca viram realmente. Passam por sitios, por prédios, por ruas, por cafés que não espreitam, por janelas que não abrem, por portas a que não batem, por uma vida que não vivem, que lhes foi furtada por si próprios! Quantos dos que andam já pararam? Quantos já sairam da parada? Quantos furaram a formatura e decidiram não atravessar na passadeira? Quantos já decidiram mandar tudo "à fava" e fugir para as ruas de Paris ou de Roma ou de uma cidade que não lhes deixam descobrir, porque não fogem para Lisboa? Para fugir não custa nada! Basta pegar no comando e carregar pausa, deixar que as filas congelem, que os carros deixem de buzinar, deixar que as preocupações que nos consomem o espirito se façam fumo e desapareçam com o vento. Era tão bom ter esse comando. Era tão bom sair da fila monótona, cancelar a nossa matrícula em Direito, Medicina ou Comunicação e pegar nas trouxas rumo ao mundo que nos chama. A saudade que sinto é da vida, do sentimento de ser livre, do sentimento de ser eu sem ser necessariamente assim, preso a este viver.
Era tão bom ter esse comando que nos deixasse ser livres! Livres da escravatura da rotina, da escravatura das pressões sociais, da escravatura dos falsos moralismos, das hipocrisias generalizadas que destroem as relações entre os Homens e permitem que duas pessoas viajem ás seis da tarde sem nunca se falarem, as hipocrisias que permitem que todos atirem as pedras que têm nas mãos em vez de as trocarem por um beijo, que comentem os contornos das suas costas como viboras que necessitam falar sobre a desgraça alheia por não terem (por certo) desgraça só sua! A vontade que surge é uma que me impele a escapar deste antro sem futuro que é Portugal.
Aquilo que se pede é que cada um seja consciente, que divirja da multidão, que se assuma como diferente e novo, algo que não se fica pelo já feito, os actos translacticios não podem de todo compensar a falta de imaginação que assola este povo sensaborão. Onde está a vontade de aprender?Onde se quedou o saber-fazer próprio?O saber-agir sobre pressão, o saber puro que é tão importante?Tudo isto se perde e se reduz às filas dos bares para beber o esquecimento em estado liquido, quando se mistura prazer com trabalho e se deixa tudo do avesso, há pouco a fazer. Quando os Homens se esquecem de viver o mundo pára, a sociedade coloca sobre si mesma um freio impossivel. Quando deixamos de viver em concordância com quem somos passamos tão somente a existir enquanto matéria biológica, deixamos de ser pessoas nem mesmo gente, reduzido a um nivel inferior ao dos ácaros. Viver sem viver é só existir, e existir sem poder viver é pairar e ninguém hoje em dia se pode dar ao luxo de pairar, hoje em dia só pode que vive!

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